quinta-feira, 16 de agosto de 2007

não há como se manter..

É estranho sair do calabouço, pensou ele. A luz incomodava seus olhos mas ao mesmo tempo o deixava ávido pelo momento após incômodo. Possibilidades, expectativas, sonhos que voltam a memória depois de um breve (?) período de substituição. A vontade de mudar o mundo volta a arder no peito dele...mesmo sabendo que essa tarefa é impossível e o melhor a fazer é pelo menos tentar mudar velhos hábitos, velhos conceitos, velhas idéias que foram adquiridas ao longo de uma caminhada de espinhos na carne e que não levam a lugar algum. Ou levam?
Ele descobriu que as coisas ao redor mudaram,que as pessoas que o amavam não estavam mais a espera dele. Viveu muito tempo congelado em uma realidade que ele mesmo criara para não morrer de desgosto. "É melhor me entorpecer e não acordar do que saber a verdade , nua e crua.." pensava ele. Pobre criança, mal sabia o que o aguardava.
Acordou enfim, e o efeito da droga criada por sua mente passou. O que sobrou: sonhos antigos e dois braços fortes." O que fazer? "Ele não sabia. "Há momentos em que é melhor deixar-se levar, mesmo sabendo que poderei chegar a um lugar incoveniente".
As memórias ele deixou pra trás, sobraram algumas poucas, mas a maior parte o deixava atordoado, apoplexo(valeu, Anna). Medo de encontrar face à face aquilo que mais temia. Mexer em velhos papéis não era seu forte, sempre acabava deixando-o neurótico, sem saber o que fazer..com raiva do mundo, mas com vontade de abraçá-lo como uma mãe abraça um filho que há muito tempo não vê. Era mais forte do que ele, então o melhor foi enterrar e fugir.
O olhar daquelas pessoas no shopping o deixava assustado: olhares tristes, evasivos, escusos, sem esperança, olhares que se contentavam apenas em ver e não enxergar. Além. As pessoas também não o enxergavam e ele às vezes se sentia incomodado com isso. Depois se acalmava ao lembrar que por muitas vezes ele mesmo olhava mas não enxergava.Passava direto, impávido, como se as pessoas ao redor fossem merecedoras da sua indiferença.O tempo passou...quarenta anos se passaram...ele ainda está à procura de algo que nem ele mesmo sabe explicar...a sensação que a música lhe permite sentir é hoje a coisa que lhe faz sentir vivo. Na música ele se refugia, encontra seu mundo...como gostaria de compartilhar isso com aquelas pessoas que passaram na sua vida!! Ele tentava explicar mas suas palavras eram inimportantes para aqueles ouvidos que desejavam outros assuntos...outras idéias...Aquela rua escura, silenciosa, triste, perigosa, era reflexo do seu interior..ele chorou caminhando contra a chuva, sozinho no meio daquela rua...sozinho contra todas aquelas marcas que de uma forma milagrosa e estranha foram deixadas pra trás quando ele entrou em casa.

Um comentário:

maoslivres disse...

"A luz incomodava seus olhos mas ao mesmo tempo o deixava ávido pelo momento após incômodo."

Alguma influência do Mito da caverna nessa frase? tem uma letra da Veredicto q tem um trecho bem parecido e dei uma plagiada dele ;)
E tô ligado q vc usou a velha troca de gêneros (ele/ela) p/ despistar né....hehe
Bom txt, Lice! Senti prazer em ler
quero outros, viu!!!!

"dê seu melhor, alcance o céu, mas aproveite a queda"